de Ubiratan G Vieira

“Aleijados contra-atacam” é o título de uma revisão bibliográfica elaborada por Lennard Davis, crítico literário, sobre a recente mobilização político/acadêmica estadunidense dos disability studies (um dos primeiros grupos de pesquisa/militância de disability studies surgiu na Universidade de Leeds, Inglaterra). São pesquisas sobre a representação da deficiência nas artes, as relações de dominação simbólica, a interface com a sociologia e antropologia da saúde, os estudos feministas, as teorias queer, com a crítica literária, com os estudos culturais, a história da cultura e demais áreas onde se desenvolvem pesquisas sobre políticas de identidade.

São autores e autoras com deficiências, ou que tem uma relação intima com a temática por se tratarem de familiares ou amigos de pessoas com deficiências. O discurso do disability studies não é apenas acadêmico mas também militante, que vem justamente da experiência do envolvimento pessoal com a questão da deficiência. No Brasil também temos militantes/acadêmicos envolvidos intimamente com a questão da deficiência, desenvolvendo pesquisas sobre identidade, preconceito e opressão, como Lígia Assumpção Amaral, que desenvolveu estudos sobre literatura e deficiência e Suely Satow que desenvolve estudos sobre identidade e paralisia cerebral. A área de “estudos surdos” é talvez a mais organizada contando com grupos em várias cidades brasileiras e publicações próprias. Na linha dos disability studies no Brasil podemos também incluir a produção de ativistas como Fábio Adiron e Gil Pena, divulgada nas redes digitais e em blogues como neste aqui. Todos estes e muitos outros, juntos no disability studies, pois, em comum a característica de produzir um conhecimento engajado.

Aos disabiity studies poderíamos chamá-los em português de “estudos deficientes”. Deficientes pois nasceram sem positivismo e em vez de ter um cromatídeo de ciência e outro de política os estudos deficientes apresentam a aberração de terem um só: a mutação cienciolítica na maioria dos casos e, em alguns casos, a mutação politiência.

Voltando ao título do artigo de Lennard. O uso do termo “aleijados” no título do artigo de Lennard Davis tem, pois, um caráter subversivo que vem do fato de que, embora tão negativamente carregado de sentidos pejorativos, o uso do termo “aleijados” refere-se de fato a um contra-ataque. Durante tanto tempo dominado pelo discurso biomédico, os estudos deficientes se desenvolvem nas humanidades na primeira pessoa e não mais na terceira pessoa.

Simi Linton, escritora estadunidense, fala desse aspecto subversivo:

Aleijado, capenga, aberração, usados pela comunidade de pessoas com deficiência têm um potencial transgressivo. São uteis intimamente e politicamente como meio de interpretar a opressão porque eles afirmam nosso direito de nomear a experiência.

Referências:

Davis, Lennard J. 1999. Crips strikes back: The Rise of Disability Studies. American Literary History 11, no. 3 (Autumn): 500-512.

Linton, Simi. 2006. Reassigning Meaning. In The Disability Studies Reader, ed. Lennard J Davis, 161-172. 2nd ed. New York: Routledge.

Leia também:

Disability and Society

Journal of Literary and Cultural Disability Studies

Snyder, Sharon L, Brenda Jo Brueggemann, and Rosemarie Garland (Ed) Thomson. 2002. Disability Studies: Enabling the Humanities. New York: Modern Language Association of America. (inclui cd com formatos acessíveis)

Ubiratan Garcia Vieira é pai, professor e atualmente desenvolvendo pesquisas sobre identidade e deficiência.


Uma oração, um agradecimento, uma exaltação de suas posições ideológicas, vamos ler este poema que Alex Garcia escreveu por ocasião do lançamento de seu primeiro livro:

capa preta com titulo e nome de autor em vermelho, o tema um rosto esquemático desenhado de perfil em amarelo

Deus, agradeço a Ti por debruçares minha essência sobre esta terra
Dares vida ao meu corpo tendo como berço esta “”Querência Amada”
De fazer serpentear em minhas veias o sangue farrapo e guarani
De ser “filho de Sepé” e de seu ímpeto guerreiro

Agradeço a Ti, meu Deus, por esta incontrolável paixão pela revolucionária liberdade
De fazer-me conhecer nesta existência terrena os preceitos de Che Guevara
Somos companheiros, pois tremo de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo
Contigo, “Che”, aprendi a endurecer sem jamais perder a ternura

Meu Deus Onipresente, a Ti agradeço por esta necessidade de autonomia e soberania
De plantar em mim a “negação”, a “rebeldia” e a “mente inconformada”
Destes movimentos aos meus movimentos de igualdade
Agradecimento eterno

Obrigado, Deus, por ter me mostrado o “atrevimento” de “Foucalt”
De fazer-me sentir em toda a plenitude a causalidade da “relação de poder”
De negar constantemente a subalternidade de meu ser
De me atrever a contestar a “liberdade vigiada”

Deus, mantenha-me assim como sou por todo o sempre
Permita-me sempre ser este pequeno “Quixote sonhador”
Permita-me, meu Deus, jamais perder a esperança
E assim por todo o sempre, poder magnificar a vida.

Alex Garcia

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