Uma palavra que tem um sentido pejorativo no uso coloquial é o termo correto no uso especializado. A trissomia do cromossomo 21 pode ser chamada de “aberração”, mas pode também ser chamada de “alteração”. Minha preocupação não é conosco, afinal, quem de nós pais usaria o termo aberração para se referir a qualquer coisa que nossos filhos tenham?

Refletir sobre a linguagem é uma forma de se apropriar dela. Essa reflexão ocorre entre nós familiares quando nos queixamos da forma como muitos médicos nós informam sobre a trissomia21 do filho ou da filha. A discussão sobre o termo aberração cromossômica na lista sindromededown não é diferente. Mas neste caso, nossas opiniões se dividem entre a denotação biomédica e a conotação “popular” do termo. Isto é, entre a denotação do que acontece com os cromossomos e as conotações pejorativas que o termo aberração acarreta. Acontece que esta distinção não se sustenta quando aceitamos nossa vulnerabilidade lingüística. É possível separar denotação de conotação quando o que é dito nos fere e ofende?

Estou certo que esta idéia não é estranha a maioria de nós pais e mães de crianças, jovens e adultos com trissomia21. Certamente não vemos contradição entre questionar a validade da linguagem que usamos quando falamos de trissomia21 e a pauta política colocada hoje para o movimento social das pessoas com deficiência e seus familiares.



2 Responses to “O uso da palavra aberração”  

  1. 1 jorge márcio pereira de andrade

    CARO UBIRATAN
    Entrei no seu blog conforme lhe prometi no nosso VI Seminário no COLE… sua falas e sua presença muito me impressionaram, sabedor que fiquei de sua implicação existencial com a questão das deficiências e dos que chamamos de pessoas com deficiência. Concordo com muitas das suas observações, em especial acerca da ‘fotomontagem’ desse OUTRO que pode ser colocado no lugar do ser ideal…O meu conhecimento deste processo ja remonta há vários anos de uma leitura critica do texto de ORWELL e da criação do Grande Irmão.
    Não pudemos ampliar o debate sobre a questão da produção da anormalidade e os usos excludentes que são feitos dos conceitos sobre os diferentes, mas manteremos contatos e nossos caminhos estarão se cruzando na busca de um desmonte dos modelos conservadores e eugenistas que ainda falam em “raça única”, “inválidos” e “hipossuficientes”, etc…
    Reforço a indicação da leitura dos caminhos eugenistas que já estavam, para além de Galton e companhia, em ação nos EUA já década de 20 e 30 do século passado, como forjadores de um modelo biomédico e biopolítico de controle das aberrações, anormalidades e dos desviantes, propondo uma ‘raça perfeita e livre dos defeitos’. Leia a materia sobre ‘BETTER BABIES ‘ e a formulação de currículos nas escolas dos EUA nesse período, e assim poderá fazer um link com os Kindergarten que depois foram os que mais aplicaram o enraizamento microfascista de eliminação de todos os que não pertencessem à raça ariana idealizada pelos nacional-socialistas alemães… o bigodinho era na verdade um fake do bigodinho alegre de Chaplin, para esconder a fotomontagem desse novo lider que seguiu um desejo das massas alemãs de criação de um Reich sem defeituosos, de toda espécie, ou seja mais um império de corpos-máquinas que produzem um Estado de Exceção (Giorgio Agambem)….
    Auschitz e Guantanamo Never More!
    UM DOCE E AFETUOSO ABRAÇO, extensivo aa sua família
    DR JORGE MÁRCIO PEREIRA DE ANDRADE
    Coordenador do VI SEMINÁRIO EDUCAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - XVI COLE - CAMPINAS 10 A 13/07/07
    DEFNET

  2. 2 ubiratan

    Caro, Dr. Jorge Márcio Pereira de Andrade,
    Pode contar comigo nessa “busca pelo desmonte dos modelos conservadores e eugenistas”!
    Retribuímos seu afeto aqui em casa.
    Um grande abraço à família!
    ubiratan

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