de Ubiratan Garcia Vieira
É uma alienação a crença de que a boa ciência é aquela objetiva e que a boa objetividade é aquela pela qual deixamos de lado nossos valores para poder assim ter acesso à realidade e à verdade. Acreditar que se pode ser objetivo deixando de lado os valores que compartilhamos como seres humanos é uma alienação porque não é possível deixar os valores de lado. A objetividade, por exemplo, é um valor que compartilhamos como pesquisadores e que muitos de nós defendem com paixão. Mas, longe de deixar a paixão pela objetividade de lado, muitos de nós estamos dispostos a dizer coisas que nos fazem falhar como pessoas responsáveis pelo nosso envolvimento mútuo e pelo contexto no qual vivemos.
Participei de um evento internacional sobre psicolingüística que ocorreu na PUC-RS em Porto Alegre. Nesta área de pesquisa da psicolingüística se estudam as “deficiências de linguagem”. As afasias e os “déficits e disturbios de linguagem” “específicos”, ou associados à surdez, surdocegueira, trissomia21, autismo e outras condições de nossa diversidade humana. Me chamou a atenção uma pesquisadora de Porto Alegre que acuada no debate com pesquisadoras do Recife, na eterna reedição do clássico “inatismo vs. interacionismo”, afirmou categoricamente “meu propósito não é ajudar ela” referindo-se à pessoa com a qual convive quando pesquisa os “distúrbios de linguagem” relacionados à doença de Alzheimer.
Não bastasse submeter esta pessoa na melhor idade, a testes psicológicos, que sabemos não serem sedutores nem divertidos, a conclusão a que chega a pesquisadora de Porto Alegre é que a doença de Alzheimer afeta a fala e a leitura. O resultado da pesquisa não visava promover a leitura ou a fala desta pessoa. A ausência deste objetivo foi questionado pelas pesquisadores de Recife: “meu propósito não é ajudar ela”. Foi a resposta.
Não é que promover a fala e a leitura fosse uma demanda desta avó de alguém, que participou da pesquisa para que a neta de alguém constata-se cientificamente o que ambas já sabiam (uma por experiência de vida e a outra de antemão). Porque alguém tiraria vantagem de que não querer ajudar outra pessoa? Só mesmo num embate acadêmico onde se gabar de objetividade se apresenta como a defesa de um chute a gol. Aceita a defesa da acusação de falta de finalidade prática, afinal o ataque recifense também compartilha do valor da objetividade, encerrou-se mais uma vez no zero a zero outra reedição do clássico inatismo vs interacionismo na lingüística.
ps: sobre responsabilidade social da lingüística leia o livro organizado por Fábio Lopes da Silva e Kanavillil Rajagopalan intitulado, A lingüística que nos faz falhar: investigação crítica, publicado em 2004.
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