Gil Pena

O discurso que se produz a partir de uma situação de deficiência tem vários caminhos possíveis. A situação de deficiência, quando presente em um indivíduo, suscita de imediato várias reações, do próprio indivíduo e daqueles que o cercam, impondo modificações também no ambiente. Essas reações, de algum modo, geram compensações que, de um lado, caminham na direção da superação dos obstáculos e, de outro, apenas resignação frente à situação e justificação para desistir.

O discurso faz parte desse conjunto de reações do próprio indivíduo e daqueles que o cercam. Diante da situação de deficiência, pode ajudar a criar soluções para essas situações ou, na direção oposta, pode reforçar o problema.

O discurso se constrói a partir da realidade vivida e origina representações do mundo, na medida em que descrevemos e interpretamos essa realidade.

Quando a realidade vivida é uma situação de deficiência, podemos descrever aquilo que está faltando e interpretar a perda que essa falta representa para o indivíduo. Esse é o discurso negativo, porque se baseia nas habilidades ou características que estão ausentes ou em menor grau. O discurso negativo nega a possibilidade de compensação.

Se, por outro lado, percebemos a situação de deficiência e ressaltamos os elementos presentes que poderiam atenuar ou eliminar essa deficiência, fazemos um discurso positivo, na medida em que buscamos alternativas que podem compensar o déficit.

Entender a deficiência e suas possibilidades de compensação nos exige uma descrição e uma interpretação da situação de deficiência, levando em conta o indivíduo como um todo e o contexto que o cerca.

As observações que fazemos e as interpretações que damos à deficiência devem buscar a origem da deficiência, a causa remota, o princípio de tudo. A dinâmica do indivíduo em sua relação com os outros e com o meio gera processos contínuos de compensação do déficit. Esses processos, algumas vezes, caminham no sentido da superação, algumas vezes no sentido da acomodação, no sentido de criar uma situação social que comporte o déficit. Há, então, uma deficiência adicional que se sobrepõe ao déficit inicialmente presente. Essa deficiência adicionada, muitas vezes construída no discurso, nas observações e nas interpretações que fazemos do déficit, é muitas vezes a deficiência mais limitante, bem mais do que a deficiência presente a princípio.

Gil Pena é médico patologista e pai. Dedica-se a estudos na área da educação, dentro da linha do Projeto Roma.



2 Responses to “O discurso da deficiência e a deficiência do discurso”  

  1. 1 Ubiratan Garcia Vieira

    Caro Gil,
    “Deficiência adicionada”: que acertada designação. Me lembrei do caso da “idade mental”: não bastasse o “déficit de aprendizado”, na síndrome de Down, por exemplo, tem os atribuem uma “idade mental” em desconpasso com a idade corporal. Os mesmos que pleiteiam recursos financeiros da política educacional para suas práticas segregacionistas. Desse jeito perceber a diferença fica difícil, quanto mais reconhecer o outro na sua própria linguagem.

  2. 2 Arimar

    Realmente o que mais “atravanca” a Inclusão , são os falsos discursos, bandeiras levantadas pela Inclusão, mas com objetivos de lucros, e assim vai..
    Abraços.
    Arimar

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