O ovo e a galinha da educação
Fábio Adiron
Há séculos as pessoas se encantam, se perturbam e se debruçam sobre paradoxos de todas as espécies. Eles são um material bastante rico para a reflexão de lógicos e filósofos desafiando a racionalidade dos mesmos. Muitos primam pelo absurdo, outros, no entanto não só servem para um exercício de curiosidade como também são ferramentas da ciência na sua busca de respostas para os problemas do mundo.
O filósofo Guido Imaguire classifica os paradoxos em três tipos : os semânticos, os lógicos e aqueles que ele denomina de paradoxos empíricos e, ele mesmo se debruça longamente a respeito de um dos mais populares desses paradoxos : o que veio antes , o ovo ou a galinha ? O que pode parecer uma brincadeira infantil, ou um debate religioso entre evolucionistas e criacionistas é, na verdade, uma questão que afeta várias áreas do conhecimento, inclusive a educação.
A discussão sobre a primazia do ovo ou da galinha acaba de ser reacesa com lançamento do livro “Educação Profissional” de Jarbas Novelino Barato pela Editora Senac. A tese em pauta é quem educa quem : é o cérebro que ensina as mãos, ou são elas que, através da repetição condicionam os neurônios a exercer determinadas habilidades ?
Em que pese o fato desse paradoxo ser apenas mais um entre tantos outros (seja o pensar que determina a realidade, ou a realidade que constrói o pensar marxista, ou a questão de linguagem e raciocínio vigostkyana), a crítica do livro à hegemonia da formação acadêmica sobre o exercício profissional prático pode induzir o leitor à desvalorização da formação conceitual em benefício da prática pura e simples e, com isso, minorar a já pouca importância dada aos nossos professores.
Mesmo que o livro queira apenas conter os ditos “excessos” acadêmicos, que realmente existem ele, ao mesmo tempo dá alimento teórico aos inimigos da formação teórica, o que não deixa de ter um certo cunho político afinal, até mesmo na nossa política temos hoje a contraposição de um presidente “prático” que sucede o “acadêmico”, chegando ao ponto da maior autoridade econômica do país ser hoje um médico.
Acreditando que só conceitos bem estruturados podem conduzir a resultados sólidos em qualquer área do conhecimento, precisamos aprender a valorizar a nossa formação acadêmica e, principalmente, os mestres que nos conduzem através dela. A prática pode aperfeiçoar uma habilidade, a repetição pode torná-la de mais fácil execução, mas jamais vamos ter o domínio completo de uma tarefa se não entendermos como é que ela se constrói ou quais são as suas origens e os seus objetivos. Caso contrário não seremos melhor que qualquer aparato mecânico de repetição.
O risco maior é, no entanto, ideológico, uma vez que pessoas educadas apenas no exercício prático de tarefas podem, de forma mais fácil, serem controladas pelos detentores do conhecimento e, nesse caso, não terão a possibilidade nem de questionar se o ovo antecede a galinha.
Fábio Adiron é marketeiro e pai. Membro do Fórum Permanente de Educação Inclusiva e moderador do grupo Síndrome de Down.
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O paradoxo é curioso. O artigo do filósofo Guido chega perto de uma resposta, mas não toca o ponto central da coisa, que é porque esse tipo de pergunta nos incomoda tanto. Nos incomoda pela nossa dificuldade em romper com o paradigma linear de nossa compreensão do mundo, em que uma coisa gera outra, e outra, e outra, indefinidamente. Ora, ovo de galinha e galinha são a mesma coisa, se pensarmos na espécie galinha. Definir uma galinha como algo que bota ovo, cisca, cacareja, que assamos no domingo é dizer dela o que observamos que ela ‘faz’. A galinha simplesmente galinha, como a goiabeira goiaba (como disse o Nelson Vaz em seu Goiaba, goiabeira). Galinha ou goiaba, do verbo galinhar ou goiabar. Em geral, não pensamos uma espécie como o modo de viver da espécie (o galinhar da galinha, por exemplo). A biologia moderna reduz uma espécie a uma configuração genética, que se conserva de uma geração a outra. Mais rico, como diz Maturana, é entender uma espécie como seu modo de vida, na configuração das relações variáveis entre o organismo e o meio, que começa na concepção do organismo e termina com sua morte, e que se conserva, geração após geração, como um fenótipo ontogênico, como um modo de viver em um meio (para a galinha, galinhar). A galinha, que nasceu de um ovo, se conserva como espécie, na galinha que nasce do ovo que ela bota. A galinha morta, se recicla, nos bichos que a comem, que acabam reciclados pela minhoca que a galinha come. Reciclando tudo, a galinha se come, o ovo nasce do ovo. Ovo e galinha se fundem na sua autopoese. São elementos inseparáveis do modo galinha de existir. “Cocoricó!”.
Demais a problematização teória vs prática da “edudação profissional” de Fábio e a desmantelada da hipótese de paradoxos de experiência de Gil. Duas questões (cacarejos de ovo em formação): o paradoxal então é da gênese do paradoxo? A invenção conceitual da deficiência e da exclusão prática da diferença são a mesma “moeda”?
Sobre a “moeda” de que fala o Ubiratan, tenho uma concepção particular. A moeda não tem dois lados, cara ou coroa, como costumamos simplificar. A moeda tem ainda a faixa que reveste a sua circunferência, com infinitos pontos de tangência, cada um por assim dizer, representando um “lado”. De algum modo, temos de romper com a dialética das faces opostas da moeda, pois em geral existem mais de duas possibilidades em jogo. Do ponto de vista da entropia, há mais gasto energético quando pressionamos o dedo sobre a moeda, tentando prevalecer a cara ou a coroa, na medida em que outro tenta virá-la, para que prevaleça coroa ou cara. A dinâmica do entendimento é dinâmica, envolvendo o gasto energético de manter viva a moeda girando em seu eixo, em ciclos espirais de exposição dos diferentes pontos de vista, não apenas cara ou coroa, mas pontos de vista tangenciais, que nos revelam aspectos inusitados e interessantes. Não apenas ovo ou galinha, deficiência ou exclusão, mas ovo, galinha, deficiencia, exclusão, vistos pela espiral em movimento, nas interações múltiplas e diversas das pessoas com as pessoas e o meio.