O comentário abaixo, jamais publicado, deveu-se a uma matéria jornalística a respeito da adoção. Entretanto, ainda é pertinente, tal qual tivesse a matéria sido publicada esta manhã.
Assim, se você ainda não se deu a oportunidade de conhecer uma casa de “crianças abandonadas”, sim, abandonadas, não as continue abandonando, visite-as! Quem sabe assim, você será amada por uma delas.

Francisco Lima*

Caro Editor:

Não obstante estejamos em 2006, ainda vemos repercutir a idéia de que adoção é para pais que não podem ter filhos biológicos; que filhos a serem adotados são “mercadorias” a serem escolhidas pelo seu perfil, ou valor de mercado (crianças novas valem mais que as mais velhas, brancas valem mais que negras, sem deficiência valem mais que com deficiência).

Matérias jornalísticas, sem perceber, corroboram com a manutenção dessas idéias, quando transcrevem esses estereótipos.

Está na hora de que se proporcione a oportunidade de as pessoas conhecerem crianças, para o surgimento do afeto que será a mola propulsora do sentimento da adoção. É assim que ocorre com o filho biológico; tem-se um tempo para se aprender a gostar do bebê, independentemente de como será este filho. Um bebê adotado não tem menos valor ou valia que um bebê advindo da relação sexual de seus pais, mas tem o grau de afeto que assim for permitido ter, advindo do convívio, da quebra de preconceitos, do amor dado ao filho etc.

Então, meu caro editor, já é hora que se revejam posturas do relato jornalístico, pois, em sua liberdade de expressão, o jornal é formador de opinião. Assim sendo, é responsável pela transformação da opinião vigente, mormente, quando esta está sutilmente refletindo as idéias preconcebidas e inadequadas sobre o que é adotar e que movimentos devem estar sustentando uma adoção, isto é, não a incapacidade de se ter filho biológico, mas a capacidade de se ter um filho.

Já foi o tempo em que se matava o filho de sangue de quem ofendia; e se apreciava o filho de um indivíduo valoroso, porque este “era sangue de seu sangue”. Afinal, Jesus, era do sangue de José? Isso teria impedido José de o amar?

Que se acabe com essa tolice de que se é preciso saber quem são os pais geradores, para que se decida se essa criança pode ser adotada, sem que se corra o risco de ela vir a ser um “problema” em potencial. Certamente, os filhos não adotados, filhos de sangue, incorrem no que os pais não desejam na mesma proporção que os filhos adotados.

Logo, passemos a tratar o adotar, a adoção e o filho adotante como filhos a se ter e não como entidades diferentes a se ter.

Não se deve adotar por dó ou pena, da mesma forma que não se gera um filho por dó ou pena do espermatozóide ou do óvulo. Adota-se porque se é capaz de amar e ser amado.

Viva as crianças, os jovens e os idosos, pois estes assim como ocorrem com as crianças mais velhas, não são adotados, por conta de nossa visão hereditária e etária.

Lembre-se de que o amor não está no sangue, mas simbolicamente no coração, e cientificamente no cérebro.

A escolha, portanto, da adoção está dentro de você e do filho que o vai adotar, e não no fenótipo ou na genética de ambos.

Cordialmente,

* Francisco J. Lima - Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos/CE/UFPE e pai adotado (por amor) por Matheus



2 Responses to “Adotar não é comprar um par de sapatos”  

  1. 1 Cristina L.Frank

    A cada dia que passa vejo meus 3 filhos crescerem e se desenvolverem, descobrindo a vida e convivendo naturalmente com a realidade de que são adotivos. Aline, hoje com 10 anos, entende o que é adoção e está feliz com os pais que tem. Almir, com 8 anos, questiona muito os motivos pelos quais a mãe biol. não o acolheu, mas sinto que ama seus pais adotivos. Amanda, 9 anos, é autista e não sei se entende esta questão da adoção, mas conversamos todos juntos sobre o assunto com calma e amor.
    Meu marido e eu os adotamos por amor. Visitamos muitos orfanatos, creches, casas para menores abandonados. Vimos e sentimos…
    Nem todas crianças estão liberadas para adoção, nestes lares improvisados, mas o que a sociedade pode fazer por estas crianças é acolhe-las, mesmo que por um final de semana, um feriado ou então adota-las provisóriamente, até que a guarda definitiva seja aprovada pela justiça.
    O que vejo na TV é um grande sensasionalismo sobre o assunto adoção. Agora virou “moda”?
    Ninguém mostra com realidade a solidão dos orfanatos. Do descaso com as crianças, que tem como companhia os programas de TV (o dia inteirinho), que não recebem o colo de um pai ou mãe. Vivem cercados de tristeza e descaso, sem saberem que uma família de verdade poderia lhes dar o que é mais precioso: o amor.

  2. 2 Krissanthy Fourakis

    “Adoção é um ato de amor.” Jargão comum na sociedade mas não assimilado pela mesma. Afinal o que é um “Ato de Amor”? Amar o que é belo, o que atrai, o preenche os padrões idealizados é muito fácil porém, acho que isso não seja Amor. Adotei meu filhote no susto, ele estava lá na maternidade, na verdade na UTI Neo-natal, havia passado da hora de nascer, tivera anóxia, engolira mecônio, sua apgar fora 6, evoluindo para 7 nos minutos seguintes. Meu pequenino estava atado ao oxigênio e tomando penicilina através do soro. Levei-o para casa. Eu que tanto falara que não adotaria uma crianças tão diferente de minha família e muito mais sério, queria saber da vida da genitora :”_Quero acompanhar o pré-natal da genitora!-_dizia eu na minha ignorância. Qdo peguei meu pequeno nos braços e o levei pra casa comecei como todos esses detalhes nada importavam. Fiz todos os exames e na véspera de pegar o resultado olheis pra aquele ãnjo dormindo no bercinho e tudo ficou tão sem sentido perto do amor que sentia por ele, resultados de exames, possíveis patologias eram tão insignificante perto do amor incondicional que havia se alojado no seio de nossa família. Hoje Isaac tem 03 anos de pura travessia, como diria minha amiga, ele é o que se destaca no meio dos amiguinhos “galeguinhos” da salinha dele. Ele é uma criança negra, adotada e feliz, que encheu de sentido a vida de nossa família. Isto é que importa.

Leave a Reply