Gil Pena

Há muitas questões filosóficas que me atormentam. Atormentar é a palavra, pois me foi dado viver num mundo, com uma cognição que não me possibilita saber as coisas. Aos poucos, tento me aprofundar nos estudos, buscando saber alguma coisa sobre o mundo, saber alguma coisa sobre o saber. Nessa busca, na medida em que me aprofundo nas reflexões, vejo as certezas se distanciarem, colocando-se mais além daquilo que sei, e mais próximas do que não sei.

Angustia-me o fato de estar num mundo onde quase todos sabem alguma coisa do mundo, muito embora sem se questionarem se o mundo é ou não como seu saber diz. E muitas pessoas têm acesso farto a informação, de modo que fontes de certeza inequívoca jorram pelos computadores, jornais, revistas e livros, assegurando-as de uma realidade quase irretocável. As vias da informação possibilitam a disseminação rápida dos conteúdos, que são transmitidos e retransmitidos, como se fossem partículas infecciosas, contaminando de saber e certeza os expostos.

Ao se contagiar nesse sistema de informações, as pessoas passam a reconhecer o mundo pelas informações que recebem e retransmitem. A disseminação, a própria repercussão da informação gera uma sensação de certeza. A certeza passa cada vez mais pelos fios da rede, mais do que pelo próprio vivenciar o mundo. Há poucos resistentes, ninguém imune.

Ainda resisto: procuro estabelecer meu território no mundo vivido, onde a certeza se dilui nas minhas capacidades cognitivas humanas, onde contraponho o mundo percebido com o mundo com que lido a cada dia, refazendo a todos instantes a minha certeza, num mundo que está em constante mutação, eu mesmo e meus processos cognitivos sempre nos construindo e nos reconstruindo.

Vou ficando cada vez mais isolado nesse mundo vivido, assistindo à construção que me parece irracional, de um mundo sistêmico, onde pessoas agem como engrenagens em uma estrutura e se alimentam e respondem a um sistema de informações, como se o mundo fosse dado por essa estrutura e esse sistema, e isso não lhes parecesse absurdo, fosse apenas assim o mundo.

Com alguns exemplos, podemos compreender como opera esse sistema. Há alguns anos, mudei de casa, e solicitei a companhia telefônica que fizesse a transferência do número. No novo endereço, teríamos um outro prefixo telefônico. Lá chegando, “pluguei” o telefone e percebi que já estava instalada uma linha. Liguei à companhia telefônica, por essa linha, expus a situação e disse que gostaria de saber o número do telefone de que discava e se aquela era mesmo a minha linha. O atendente solícito, pergunta-me de que endereço falo, e dou a informação. Ele consulta o terminal e me responde: “O senhor não está aí; essa linha está em outro endereço”. Das poucas coisas que sabia, era que eu estava ali, e me permiti duvidar da informação que me davam, mas não foi fácil argumentar. Ao atendente, não era dado duvidar da informação que o seu sistema fornecia, ele se assegurava de sua certeza na informação; ele próprio transformara-se em uma extensão de seu terminal, autômato leitor.

Experiência semelhante vivi com a operadora de TV a cabo. Perguntado sobre quantos pontos dispunha em meu endereço, respondi, dois da TV a cabo e um da Internet. Ela me responde, o senhor se enganou, há dois pontos, um de TV, um de internet. De repente, cheguei a considerar a possibilidade de que um dos decodificadores pudesse haver se desmaterializado, mas conferi, ainda estavam lá, continuei certo, eram três, até três eu sabia contar. Mas o conflito de realidades – a minha realidade vivida, a realidade sistêmica da atendente – não se conciliou, permaneci errado para o sistema. Vencido, tive de fazer a solicitação de que fosse instalado (fisicamente) o ponto adicional que já estava (fisicamente) instalado, pois não era possível contradizer o sistema.

Esses exemplos podem parecer um pouco fora de contexto, mas é possível que muitas pessoas tenham vivido situações semelhantes. De uma maneira ou de outra, em muitas situações, reduzimos nosso mundo a informações que o sistema nos apresenta sobre ele, e o pior, limitamos o mundo real à estrutura do sistema de informações.

Há poucos dias, estive em uma secretaria de estado, onde fui conhecer o trabalho ali desenvolvido. Explicam-me sobre a estrutura a que estão submetidos, desde as determinações ministeriais, e o trabalho feito, todo frente ao terminal de computador, numa ligação servidor-servidor, o servidor público e o servidor de rede, extremidades de um sistema, que por inputs e outputs leva e traz informação. Problemas que a população eventualmente enfrente, podem não se refletir nas informações catalogadas pelo sistema: aí não há problemas, diz o sistema. Eventualmente, as informações levantam problemas, mas que não podem ser corrigidos, pois as soluções, embora eventualmente conhecidas, implicariam em uma mudança do sistema ou da estrutura.

O sistema, como entidade, coopta seguidores e angaria deles um compromisso e as pessoas, absorvidas nesse sistema, peças de sua estrutura, trabalham pela sua manutenção e até o defendem frente às críticas, pois é neste sistema que aprenderam a perceber o mundo real e esta estrutura lhes dá a segurança de seguir compartilhando essa realidade.

É a segurança de dizer ‘eu sei’. É o caso de João Batista do Mares Guia dizer, seguro, que a pessoa com síndrome de Down, não aprende matemática da sexta série. Ele sabe: certeza dada em seu sistema.

Eu não sei, quero dizer, não tenho certeza. Busco um compromisso com o mundo vivido, com as pessoas que me cercam nesse mundo. A existência de um mundo sistêmico não gera um compromisso de mim para ele. O sistema não é uma entidade a qual mereça alguma deferência. Eu desconstruo o sistema, vejo ali pessoas que não sabem, que se fizeram engrenagens em uma estrutura, e não percebem que o sistema não respeita as pessoas. As pessoas que se sujeitem ao sistema. Um professor ou uma professora comprometida com o sistema, não precisa se preocupar em educar ou formar seus alunos. Não precisa mesmo duvidar que há uma matemática da sexta série: está no livro didático do sistema.

Bem, eu não sei, não tenho certeza. Tenho dúvida se há uma matemática da sexta série. Embora possa operar um polinômio e saber, com certeza, o resultado, não fico seguro se sabemos que aplicação tem esse saber.

Há também o caso de que me fala o Fabio, do simpósio que se programa, onde a inclusão se debate por aqueles que sabem, mas restringem a inclusão a condições dadas por seu próprio saber.

Ainda não sei, não tenho certeza. O sistema comporta muitas estruturas não inclusivas, incompatíveis com o que se convencionou chamar inclusão. E o ‘saber’ inclusivo está cheio de pessoas que lidam nestas estruturas, pessoas que disseminam suas informações, mesmo nos simpósios que deveriam ser de construção de um novo conhecimento inclusivo, não de disseminação dos mesmos velhos conceitos e informações.

Eu não sei, não tenho certeza. Há alguma comunidade por aí, talvez algum simpósio, onde se reúnem os que não sabem, mas que estão trabalhando na construção de saber algo novo?



5 Responses to “Eu não sei, não tenho certeza”  

  1. Olá Gil

    Eu tmabém não sei e nem estava lá, mas imagino que esse Congresso que aconteceu em Portugal (http://www.congressointdeficiencia.com/) possa (sem que eu mesmo possa garanti-lo) ser um passo em direção a isso. Pelo menos é uma perspectiva que não estou aconstumado a ver no Brasil. Mas vale ter mais informações. Pelo pouco que pude me informar, ainda não estou convencido de nada, ainda mais porque sabemos que Portugal é um país muito conservador no que se refere a direitos humanos e mesmo bons títulos de painéis e boas credenciais muitas vezes significam muito num primeiro olhar. Num segundo, já não sei..

    Um abraço e obrigado pelo deleite
    Lucio

  2. 2 Sonia Cruz

    Olá Gil, soube da última frase pelo Forum Inclusão através do Fábio Adiron, daí, quis ler o texto completo e, realmente gostei da leitura. Acho que não queremos ter as certezas quase incertezas iguais a que todos mantém com muito esforço.Mas tenho certeza que estamos na busca de alguma certeza, senão, perguntaremos um dia tristemente, “do que serve a vida?”, não tenho religião e detesto convencer as pessoas de “que existe uma verdade lá fora”, porque sei no meu íntimo que temos a possibilidade de viver bem e ajudar
    os outros de alguma maneira, mesmo não tendo certeza do resultado de mim, dele ou para os outros. Adoro refletir e voce me ajudou!! Obrigada,
    Sonia Maria da Cruz, futura educadora de São Paulo/SP

  3. Olá Gil, ao ler o seu artigo (diga-se de passagem que eu adorei), não poderia deixar de comentar. Sou deficiente visual e sinto muito na pele esta questão das pessoas generalizarem esquecendo que antes de sermos pessoas com deficiência, somos um indivíduos distintos onde temos questões diversas. Buscando uma forma de poder “mostrar” isto para a sociedade, criei um blog onde coloco situações do meu dia-a-dia para que através de minhas atividades, eu possa passar esta noção de que fazemos tudo como qualquer pessoa. Também busco por meio de vários acontecimentos orientar para que a comunicação não se torne truncada onde não sintamos constrangidos seja por um comentário inoportunos ou alguma atitude desnecessárias. Compreendo que as pessoas desejam ajudar, porém por não terem tanta certeza do que fazem, nos deparamos ainda com ideias preconcebidas.

    Parabéns pelo post e não poderia ser melhor ilustrado.
    Por isso é que eu digo que entre certezas e incertezas, o melhor é perguntar e perguntar.
    Abraços.

  4. 4 Susana

    Oi Gil, gostei muito do artigo! Sou professora na área de deficência visual e compartilho também das suas incertezas…
    Obrigada!
    Susana


  1. 1 Novidades do dia 17/02/2009 - Ano IV « agência para promoção da inclusão

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