A ansiedade de que posso estar deixando de fazer alguma coisa que no futuro possa me ser cobrada é uma coisa difícil de combater. Também difícil de combater são pessoas não contributivas, que podem no futuro te cobrar por alguma coisa que você não fez e que diriam que deveria ter feito. Se forem profissionais de alguma área (fisio, fono, escolas, etc) reconheço nelas um certo grau de charlatanismo, já que não podemos intervir no passado e se de algum modo, ela já se desculpam antecipadamente pelo fracasso da intervenção (“vamos fazer o possível, mas o resultado não posso garantir… se pelo menos tivesse sido feito assim, ou não tivesse feito aquilo”) é porque não têm confiança naquilo que se propõem a fazer (no futuro).

Talvez aí esteja a primeira coisa que aprendi, não mudamos o passado, e como não mudamos, não devemos gastar um pingo de angústia ou lamentação sobre o que fizemos ou deixamos de fazer. Tenho um raciocínio análogo para o futuro, não podemos prevê-lo. Ficarmos angustiados se nossos filhos sentarão, andarão, lerão, aprenderão usar a privada, também não nos contribui muito.

Não vivemos nem no passado, nem no futuro, mas sim no dia de hoje. Não apagamos o passado, nem negamos o futuro, é claro. Com a memória do passado e a planificação do futuro, sei o passo estou dando hoje. É só hoje que dou o passo, o passo de ontem eu já dei e o passo de amanhã eu ainda vou dar. Dou muito valor portanto ao processo, mais que ao resultado. O resultado é um momento de análise, não é um ponto de chegada. Desse ponto, já partimos na construção de um novo projeto e é nesse construir que levo a vida. É nesse construir que aprendemos e nos desenvolvemos como seres humanos.

Entender o ser humano como um ser em construção, foi uma das melhores descobertas. Nós nos construimos na cultura. A nossa maneira de pensar reflete não a intricada rede neuronal cerebral, com sinapses, neurotransmissores, etc, mas sim as ferramentas e os elementos da cultura (valores, linguagem, significados). A maneira pela qual pensamos, nós a aprendemos, não nascemos com ela. Foi aprendendo alguma maneira de pensar que nos desenvolvemos. Isso é o que diz a escola Russa da psicologia do desenvolvimento (autores como Vigotsky, Luria, Leontiev), que nos anos 20 e 30, revolucionaram o pensamento nessa área. Contudo, esse pensamento chegou aos EUA, apenas no início da década de sessenta do século passado.

Vigotsky é um psicólogo russo, que entre os anos 20-30 produziu uma obra riquíssima. Morreu muito novo, aos 37 anos, se não me engano, e é incrível como deixou uma obra tão vasta. Sua contribuição na área da psicologia do desenvolvimento vem sendo ainda descoberta, já que seus trabalhos foram traduzidos do russo tardiamente. Sua maior contribuição foi ver o desenvolvimento gerado pela cultura, pelas relações humanas, pelo aprendizado, e é nesse aspecto que se contrapõe a Piaget. Em seu livro “A formação Social da Mente”, descreve cada uma das funções cerebrais, como percepção, atenção, memória, linguagem, etc, destacando as ferramentas da cultura, que inicialmente são externas, sendo depois internalizadas, e passam a ser usadas pelo cérebro como se fossem suas. Segundo ele, o desenvolvimento não ocorre desvinculado ao aprendizado (ao contrário de Piaget, que considera necessário um determinado desenvolvimento anterior para que o aprendizado ocorra). Para Vigotsky, não se separa o aprendizado do desenvolvimento e sua brilhante solução foi o que chamamos de “zona do desenvolvimento próximo”.

O que é a tal zona do desenvolvimento próximo? Em geral, quando se avalia o desenvolvimento de uma criança, por meio de um teste, em geral  queremos saber quanto ela já desenvolveu, isso é, aquelas habilidades,  funções, que é capaz de desempenhar sozinha, sem ajuda de um adulto. Esse é o desenvolvimento real, passado. Se, por outro lado, a criança se demonstra capaz de resolver o teste, com ajuda de um adulto, fornecendo pistas ou esclarecendo algum ponto, considera-se que o ponto que alcançou com a ajuda, seja seu desenvolvimento potencial. Assim, duas crianças de 8 anos, podem ter o desenvolvimento real próprio para a idade de oito anos, mas pode ser que uma consiga realizar tarefas com ajuda de um adulto, que são atribuídas para idade de 12 anos e a outra para a idade de 10 anos. Poderíamos considerar que ambas tenham o mesmo desenvolvimento? Entre o desenvolvimento passado e o potencial, há a zona de desenvolvimento próximo. Lembram que ao princípio disse que vivemos o dia de hoje, que é hoje que damos o passo? O presente, por assim dizer, é a zona de desenvolvimento próximo, é onde ocorre o aprendizado, que vai sedimentando o desenvolvimento passado e expandindo o desenvolvimento potencial. É nessa faixa que caminhamos.

Luria foi um dos principais contemporâneos e um dos desenvolvedores das idéias de Vigotsky. Seu livro clássico “Working brain” foi publicado em 1972, e mapeia as funções cerebrais, nas diferentes regiões do cérebro. Foi
um dos desenvolvedores e divulgadores das idéias de Vigotsky. Nesse livro, ressalta que as funções cognitivas como percepção, atenção, memória, linguagem, planificação, etc, não podem ser reduzidas às estruturas cerebrais, e que ferramentas da cultura (palavras, significados, relações) medeiam o funcionamento cerebral. Assim Luria afirma que o cérebro é contexto. Se temos um contexto rico de significados, culturamente  estimulante, fornecedor de ferramentas de pensamento, teremos um cérebro pensante.

Da teoria a prática: no que essa filosofia toda vai ajudar? Ajuda a trabalharmos na construção de ferramentas da cultura, que vão ajudar nossos filhos a se desenvolverem. O projeto Roma propõe a utilização de pequenas estratégias, no enriquecimento do contexto. Assim, toda atividade humana que desenvolvemos, pode ser aproveitada de algum modo para o aprendizado. Seja uma compra na padaria, ir na casa da avó, ou um passeio no zoológico. O valor da fotografia, do registro de imagem, não pode nunca ser substimado, e com as fotos de nossas atividades, são trabalhados os processos de atenção, memória, planejamento. É a ferramenta externa, que ajuda a criança a lembrar o passado e antecipar o futuro. Assim, fomos a padaria, compramos o pão.

Mostramos nas fotos o que fizemos: fizemos uma lista? Leite, presunto, pão? fomos de carro? fomos a pé? levamos sacola? levamos dinheiro? escolhemos o pão, etc, tudo. Esse registro é usado para antecipar o que pode acontecer na próxima vez que voltarmos a padaria. Tudo como atividade cotidiana. É tão interessante como isso se constitui uma ferramenta externa, que às vezes dizíamos a Sofia que uma Tia ou Prima vinha visitá-la, e ela ia a uma gaveta com as fotos, pegar aquela que retratava a pessoa. A gaveta com as fotos era uma ferramenta externa, já que seu cérebro, não podia acomodar toda aquela informação e organizá-la. Com a “ferramenta externa” podia receber auxílio de adultos, contribuindo para o seu desenvolvimento. Isso tudo com atividades que façam sentido para criança, atividades em que seja ela a protagonista.

Gil Pena
20 de Dez de 2004